Irão pode esgotar arsenal de armas de milhares de milhões dos EUA e vencer pela exaustão
Historicamente, o barulho dos motores e a precisão dos bombardeamentos definiam o vencedor de um conflito.
No entanto, no atual cenário de tensão entre o Irão, Israel e os Estados Unidos, o som que mais assusta os estrategas não é o das explosões, mas sim os armazéns vazios.
A logística como novo campo de batalha
Historicamente, os estrategas militares afirmavam que as guerras não se venciam apenas na frente de combate, mas sim nas fábricas. Durante a Segunda Guerra Mundial, a capacidade industrial dos Estados Unidos de produzir aviões e tanques em massa acabou por desequilibrar a balança global.
Hoje, essa mesma lógica regressa com uma face distinta: a velocidade de produção e a capacidade de armazenamento de munições de alta tecnologia são agora tão críticas quanto a precisão dos ataques.
O atual cenário de tensão entre o Irão, Israel e os Estados Unidos transformou-se numa fria e rigorosa corrida aritmética para determinar quem esgota primeiro o seu arsenal. Teerão não procura competir no domínio dos céus ou em bombardeamentos de longa duração; a sua tática é mais simples e eficaz: saturar as defesas inimigas com uma quantidade de drones e mísseis superior à capacidade de reposição dos interceptores.
O esgotamento das reservas no meio da guerra
Muito antes da recente escalada, altas patentes militares norte-americanas já tinham alertado para o facto de os conflitos regionais estarem a consumir as reservas de interceptores a um ritmo alarmante. Sistemas sofisticados como o Patriot, o THAAD ou o Standard Missile têm sido utilizados de forma intensiva.
Os dados sugerem que uma parte significativa do stock anual destes sistemas pode ser consumida em apenas alguns dias de combate real. A produção destes componentes é lenta e extremamente dispendiosa, o que torna a "profundidade do carregador" (a capacidade de manter fogo defensivo contínuo) uma preocupação central para o Pentágono.
O Irão transformou o custo financeiro numa arma de primeira linha. Ao lançar centenas de drones e mísseis de cruzeiro, obriga os defensores a gastar milhares de milhões de euros em contra-ataques. Enquanto um drone iraniano pode custar apenas algumas dezenas de milhares de euros, o interceptor utilizado para o abater custa entre quatro a cinco milhões de dólares por unidade.
Frequentemente, são disparados dois interceptores para garantir a neutralização de um único alvo. Esta desproporção, que pode chegar a vinte para um em termos de gastos, favorece estruturalmente quem ataca com tecnologia mais barata e abundante.
A janela crítica de cinco dias
Especialistas e analistas de defesa convergem num ponto inquietante: ao ritmo atual de consumo, as reservas de interceptores da coligação poderão esgotar-se num período de quatro a cinco dias. Esta estimativa baseia-se no cruzamento entre a cadência de lançamento iraniana e a necessidade de resposta defensiva.
Uma vez que a produção de novos mísseis defensivos pode demorar meses ou anos, um conflito que ultrapasse esta janela temporal deixaria os alvos vulneráveis, não por falta de vontade política, mas por ausência física de munições nos armazéns.
Para Washington, a perspetiva de uma guerra que dure mais de cinco dias é alarmante. Cada míssil disparado no Médio Oriente representa um recurso a menos para um eventual cenário de crise noutras regiões críticas, como o Indo-Pacífico. A superioridade tecnológica norte-americana corre o risco de ser neutralizada pela simples aritmética do tempo e do custo.
O Irão parece ter compreendido que pode permitir-se perder projéteis económicos durante muito mais tempo do que os seus adversários conseguem sustentar o disparo de munições de luxo. A vitória, neste prisma, será decidida nas cadeias de montagem e na resiliência das linhas de abastecimento.
Teerão avisa países europeus para não se envolverem: "Ato de guerra"
O Irão avisou hoje os países europeus para não se envolverem na sua retaliação contra Israel e os Estados Unidos, depois de a Alemanha, a França e o Reino Unido se terem declarado prontos para "ações defensivas"
"Qualquer ato deste tipo contra o Irão seria considerado um ato de cumplicidade com os agressores", acrescentou.
Os três países europeus adotaram na segunda-feira uma posição estratégica comum, declarando-se prontos para tomar "ações defensivas proporcionais" para destruir a capacidade do Irão de lançar drones e mísseis.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, confirmou o apoio às operações para impedir novos ataques iranianos e autorizou a utilização de bases britânicas para apoio logístico aos Estados Unidos, tendo ativado planos de contingência para retirar cidadãos do Golfo Pérsico.
No caso da Alemanha, o chanceler, Friedrich Merz, adotou um tom cauteloso, evitando criticar as ações militares de Washington, mas sublinhando que a prioridade alemã é o planeamento do pós-guerra e a garantia de que o Irão abandonará definitivamente o seu programa nuclear.
Merz, que irá encontrar-se hoje, em Washington, com o Presidente norte-americano, Donald Trump, sendo o primeiro líder mundial a fazê-lo desde o início da ofensiva.
Por seu lado, o Presidente francês, Emmanuel Macron, admitiu a necessidade de defender aliados regionais e interesses europeus, mas continua a enfatizar a importância de evitar uma guerra regional total, mantendo canais abertos com outros atores do Médio Oriente.
Israel e Estados Unidos lançaram no sábado um ataque militar contra o Irão, alegadamente para "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano", e Teerão respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas na região e alvos israelitas.
Israel reclamou ataque contra complexo do gabinete presidencial de Teerão
Segundo as forças israelitas, as instalações estão localizadas a "poucos metros do complexo" onde o líder supremo e oficiais militares foram atingidos no passado sábado.
Os bombardeamentos de segunda-feira á noite tiveram como alvo o gabinete presidencial, bem como a sede do Conselho Supremo de Segurança Nacional, o órgão responsável pela tomada de decisões de segurança do regime iraniano.
No total, o Exército israelita afirmou ter aatacado aproximadamente 600 alvos no Irão.
Na outra frente, no Líbano, os militares israelitas atacaram "mais de 160 alvos do Hezbollah" (Partido de Deus) no sul do país, nas últimas 24 horas, onde também intensificou a invasão terrestre.
De acordo com informações recolhidas pela agência espanhola EFE, Teerão é responsável por 56% dos ataques registados, seguida pelas províncias do Curdistão (oeste) e Hormozgan (sul), no estreito de Ormuz.
Entre os alvos atingidos estão instalações militares, edifícios residenciais e o cais Shahid Bahonar em Bandar Abbas, uma cidade portuária no sul do Irão, localizada na província de Hormozgan, nas margens do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz.
Segundo o Crescente Vermelho iraniano, 787 pessoas morreram no Irão, incluindo 180 num ataque a uma escola.
Em Israel, dez pessoas morreram (uma em Telavive e nove em Beit Shemesh, ambas no centro do país), segundo os serviços de emergência.
Israel e Estados Unidos lançaram no sábado um ataque militar contra o Irão, para "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano", e Teerão respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas na região e alvos israelitas.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que a operação visa "eliminar ameaças iminentes" do Irão e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, justificou a ação conjunta contra o que classificou como "ameaça existencial".
Operação Fúria Épica. "Conhecíamos Teerão como conhecíamos Jerusalém"
Praticamente todas as câmaras de trânsito na capital iraniana, Teerão, foram hackeadas por Telavive ao longo dos anos, as suas imagens depois encriptadas e enviadas de volta. Muito antes das bombas caírem "nós conhecíamos Teerão como conhecíamos Jerusalém", confessou um agente de inteligência israelita.
Quando a equipa de guarda-costas e os condutores dos altos funcionários iranianos, e os próprios, começaram a chegar ao trabalho no sábado, Israel via cada segundo. E quando o líder supremo do Irão chegou ao complexo só restava esperar pelo momento certo.
Praticamente todas as câmaras de trânsito na capital iraniana, Teerão, foram hackeadas por Telavive ao longo dos anos, as suas imagens depois encriptadas e enviadas de volta, contaram duas fontes próximas do assunto ao jornal The Financial Times.
Muito antes das bombas caírem "nós conhecíamos Teerão como conhecíamos Jerusalém", confessou um agente de inteligência israelita ao mesmo meio. "E quando conheces [um lugar] tão bem como conheces a rua em que cresceste, notas em todas as pequenas coisas que estão fora do lugar", apontou.
Mas as imagens em tempo real não são suficientes para as forças israelitas. Para além disso, conseguiram ainda penetrar a rede móvel iraniana de tal forma que não só conseguiam localizar um a um quem estava dentro do complexo, como também interromperam o sinal de cerca de uma dúzia de torres de rede móvel. Se alguém tentasse ligar para uma pessoa que estivesse naquela zona, iria apenas parecer que essa pessoa estava ao telemóvel com outra - o que tornaria quase impossível avisar de forma célere as equipas de segurança.
Em situações destas, a política de Telavive exige que dois agentes séniores, a trabalhar de forma independente, confirmem com grandes certezas que o alvo está na localização certa e com quem está acompanhado antes de ser lançado o ataque. Desta vez, no entanto, terão tido um terceiro elemento… parte das forças norte-americanas.
Segundo o Financial Times, os Estados Unidos tinham uma fonte humana no local. Questionada pelo jornal, a CIA recusou comentar esta informação.
Uma pessoa com conhecimento da operação contou ao mesmo meio que o ataque ao Irão já tinha sido planeado há vários meses, mas a data ainda estava por determinar. A decisão foi tomada quando a CIA recebeu informação de que Khamenei ia realizar uma reunião no sábado de manhã no complexo em Teerão com uma boa parte dos altos responsáveis iranianos à sua volta.
Era um momento particularmente oportuno para as forças israelitas e norte-americanas. O ayatollah, ao contrário do antigo líder do Hezbollah (morto por Israel o ano passado), não tinha como rotina permanecer escondido em bunkers. Aliás, mostrava-se publicamente com alguma recorrência e algumas fontes próximas dizem mesmo que Khamenei esperava ser martirizado mais cedo ou mais tarde.
Contudo, em altura de guerra, um ataque ao líder supremo seria significativamente mais difícil. Nessas situações "era incomum ele não estar no seu bunker - ele tinha dois - e se ele lá estivesse, Israel não teria conseguido chegar até ele com as bombas que tinham".
Israel e os Estados Unidos lançaram a 28 de fevereiro um ataque ao Irão alegando que o objetivo era "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano", afirmando que Teerão estava a reconstruir o seu programa nuclear. Note-se que o Irão e os Estados Unidos estavam à mesa a negociar este mesmo tema.
Em resposta aos ataques, Teerão respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas, alvos israelitas e países aliados.
Segundo o Crescente Vermelho iraniano, os ataques israelo-norte-americanos fizeram desde sábado pelo menos 787 mortos. O exército dos Estados Unidos confirmou a morte de seis militares norte-americanos.